
Autor(a): Marcelo Rubens Paiva
Gênero(s): Memória, Autobiografia
Ano de publicação: 2015
Editora (Brasil): Alfaguara
Número de páginas: 256
País: Brasil
Tema(s) centrais: memória, ditadura militar, família, corpo, resistência
Classificação indicativa: Adulto
Nota média (Goodreads): 4,2
Adaptação (se houver): Cinema
Quando A Memória Se Recusa A Desaparecer
Há livros que não contam apenas uma história; eles resistem. Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, nasce dessa recusa em esquecer. Desde as primeiras páginas, fica claro que não se trata de um relato confortável sobre o passado, mas de um gesto de permanência: lembrar como forma de existir, narrar como forma de atravessar o que tentou ser apagado.
Ao longo do livro, a memória não aparece como algo estável ou organizado. Pelo contrário, ela surge fragmentada, por vezes confusa, atravessada por lacunas e silêncios. Ainda assim, é justamente nesse movimento que o texto encontra sua força. Não há tentativa de embelezar o que doeu. Há, sobretudo, o esforço de manter vivo aquilo que o tempo — e a história — tentaram empurrar para a margem.
Entre A História Pública E A Dor Privada
Enquanto o livro percorre episódios marcantes da história recente do Brasil, ele nunca perde de vista o impacto íntimo desses acontecimentos. A ditadura militar não aparece apenas como contexto político, mas como força que atravessa lares, corpos e vínculos familiares. Assim, o que poderia ser um relato histórico se transforma em experiência emocional.
Ao mesmo tempo, Marcelo Rubens Paiva escreve a partir de um lugar profundamente pessoal. Ele não observa os fatos à distância. Ele os carrega. E, ao carregá-los, revela como a violência política se infiltra no cotidiano, alterando trajetórias individuais de forma irreversível. Nesse sentido, Ainda Estou Aqui constrói uma ponte delicada entre memória coletiva e dor particular.
O Corpo Como Lugar De Ruptura
Ao longo da narrativa, o corpo assume papel central. Não apenas como presença física, mas como território afetado por perdas, limitações e adaptações. A experiência do autor com a deficiência atravessa o livro de maneira honesta, sem sentimentalismo, mas também sem endurecimento artificial.
Há, constantemente, um confronto entre o corpo que existia antes e o corpo que passa a existir depois. No entanto, o texto não se detém na lamentação. Ele se movimenta. Procura outras formas de estar no mundo. E, nesse movimento, o leitor percebe que sobreviver não significa retornar ao que se era, mas aprender a existir de outro modo.
Família, Ausência E O Peso Do Silêncio
Um dos eixos mais potentes do livro está na relação com a família, especialmente com a ausência que se impõe de forma brutal. O silêncio, aqui, não é apenas falta de informação. Ele é imposto, construído, mantido. E viver com esse silêncio exige um esforço constante de elaboração.
Ainda assim, Ainda Estou Aqui não transforma a família em espaço idealizado. Pelo contrário, expõe fragilidades, conflitos e tentativas falhas de comunicação. E é justamente essa honestidade que torna a narrativa tão humana. A dor não aparece como espetáculo, mas como convivência diária.

Lembrar Como Ato Político
Embora profundamente pessoal, o livro assume dimensão política sem precisar levantar bandeiras explícitas. O simples ato de lembrar, de narrar e de registrar já se torna gesto de enfrentamento. Em um país marcado por tentativas recorrentes de apagamento, contar a própria história é recusar a amnésia coletiva.
Ao longo do texto, o leitor percebe que memória não é nostalgia. É responsabilidade. Lembrar não serve para reviver o sofrimento, mas para impedir que ele seja naturalizado ou repetido. Nesse sentido, Ainda Estou Aqui funciona como alerta silencioso e persistente.
Uma Escrita Que Caminha Entre Fragilidade E Lucidez
O livro não busca heroicidade. Ele caminha entre fragilidade e lucidez, entre dor e ironia, entre queda e permanência. Marcelo Rubens Paiva escreve como quem sabe que não há respostas definitivas, mas ainda assim escolhe continuar perguntando.
Essa postura sustenta a leitura. Não há promessa de superação completa. Há, sim, a construção de um lugar possível para a dor existir sem paralisar. E isso, por si só, já é um gesto de coragem.
Quando Fechamos o Livro
Ao fechar Ainda Estou Aqui, fica a sensação de ter atravessado algo que não se encerra. A memória continua. A história continua. O impacto permanece. O livro não oferece conforto fácil, mas oferece verdade e, muitas vezes, é isso que mais precisamos.
Porque lembrar, afinal, não é ficar preso ao passado. É garantir que ele não desapareça. E você? Já leu Ainda Estou Aqui? O que mais te atravessou: a memória, a história ou a forma como o silêncio se transforma em presença? Conte nos comentários.
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