
Autor(a): Machado de Assis
Gênero(s): Romance psicológico, Clássico
Ano de publicação: 1899
Editora (Brasil): Diversas
Número de páginas: varia conforme edição
País: Brasil
Tema(s) centrais: memória, ciúme, verdade, subjetividade
Classificação indicativa: Adulto
Nota média (Goodreads): 4,1
Adaptação (se houver): cinema, teatro, televisão
Quando A Memória Decide Contar Sua Própria Versão
Algumas histórias não pedem para ser lidas com pressa. Elas exigem silêncio, atenção e, sobretudo, desconfiança. Dom Casmurro, de Machado de Assis, nasce dessa exigência delicada: a de acompanhar uma voz que se oferece como confissão, mas que, desde o início, deixa claro que memória e verdade raramente caminham juntas.
Bentinho decide contar sua história já afastado do mundo, recolhido em si mesmo, tentando “atar as duas pontas da vida”. No entanto, ao fazer isso, ele não reconstrói apenas o passad, ele o reorganiza. Assim, cada lembrança narrada carrega não só o que foi vivido, mas aquilo que ele acredita ter vivido. E, nesse intervalo instável, o romance constrói sua força.
Um Amor Que Cresce Sob Vigilância
Desde a juventude, Bentinho e Capitu compartilham uma intimidade que nasce quase por acaso, entre janelas próximas, olhares demorados e promessas sussurradas. Capitu surge como presença viva, curiosa, inteligente e intensamente observadora. Seus gestos nunca são gratuitos; seus silêncios nunca são vazios. Ainda assim, é justamente essa complexidade que inquieta.
Enquanto Bentinho cresce dividido entre o desejo e a obrigação religiosa imposta pela família, Capitu parece sempre um passo à frente, adaptando-se, calculando, sobrevivendo. O amor entre os dois, embora intenso, se desenvolve sob constante vigilância — social, familiar e, sobretudo, interna. Bentinho ama, mas também teme. E onde há medo, a dúvida encontra terreno fértil.

O Ciúme Como Narrador Invisível
À medida que a história avança, o ciúme deixa de ser apenas sentimento e passa a funcionar como lente. Nada mais é visto de forma neutra. Olhares ganham significados ocultos. Gestos comuns se transformam em provas silenciosas. Machado de Assis constrói esse processo com precisão cirúrgica, mostrando como a mente humana é capaz de criar narrativas para sustentar suas próprias inseguranças.
Capitu, nesse ponto, se torna ainda mais fascinante. Vista sempre pelo olhar de Bentinho, ela nunca tem a chance de se explicar diretamente. Ela existe na versão dele, e é justamente isso que torna o romance tão perturbador. Não sabemos quem Capitu é; sabemos quem Bentinho acredita que ela seja.
Enquanto isso, personagens como Escobar entram na trama não como vilões claros, mas como catalisadores da dúvida. O perigo não está nos atos explícitos, mas nas interpretações.
Personagens Presos À Própria Consciência
Bentinho é um narrador profundamente humano. Frágil, contraditório, inseguro, ele tenta convencer o leitor enquanto, inconscientemente, se revela. Sua dor é real, mas sua leitura do mundo é enviesada. Ele não mente necessariamente, ele acredita.
Capitu, por sua vez, atravessa o romance como uma figura enigmática. Inteligente, adaptável e emocionalmente complexa, ela foge de qualquer tentativa de redução. Sua famosa ambiguidade não é falha de construção, mas escolha estética. Machado cria uma personagem que resiste a julgamentos fáceis, mesmo depois de mais de um século.
A Linguagem Como Armadilha Elegante
A escrita de Machado de Assis é irônica, precisa e profundamente moderna. Ele dialoga com o leitor, provoca, interrompe, volta atrás. O texto flui com leveza, mas carrega densidade psicológica intensa. Cada capítulo curto funciona como peça de um jogo maior, no qual nada é entregue de forma definitiva.
Quando Fechamos o Livro
Ao terminar Dom Casmurro, a pergunta não é se Capitu traiu ou não. A pergunta verdadeira é outra: até que ponto somos capazes de confiar na história que contamos a nós mesmos? Machado de Assis constrói um romance que não oferece respostas porque sabe que a dúvida é mais honesta do que qualquer certeza apressada.
E você? Já leu Dom Casmurro? Em que momento sua confiança no narrador começou a vacilar? Conte nos comentários.
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Se você se interessa por narrativas marcadas pela introspecção e pela sensação de deslocamento interno, A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, também investiga o abismo entre quem somos e quem acreditamos ser.
Já A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, dialoga com esse olhar simbólico ao mostrar como escuta, fé e interpretação moldam destinos.
